Estatísticas refletem questões biológicas e culturais, entre outras Reuters

As cenas de massacre têm se repetido em várias partes, trazendo a dor e o horror, como no último dia 2, quando, do 32º andar de um hotel, tiros, vindos de armas automáticas, atingiram uma multidão em Las Vegas, deixando 59 mortos. Mais tarde, em meio ao pranto e à indignação da população, não soou como novidade a informação das autoridades de que o autor era Stephen Paddock. Ou  melhor, um homem.

O UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), da Nações Unidas, em estudo divulgado em 2014, concluiu que 95% dos assassinatos no mundo são causados por homens, que também são os que mais morrem de forma violenta.

Essa questão de gênero, porém, difere da delicada comparação entre a capacidade dos homens e das mulheres em outros assuntos. Não se trata de machismo ou sexismo. Em relação a crimes, as estatísticas refletem a polêmica questão biológica e padrões culturais, sociológicos e psíquicos. São fatores que, unidos, sempre levaram o sexo masculino a cometer mais barbáries.

Nestes casos extremos, que já têm se tornado rotineiros, o homem se vê em um conflito com ele mesmo. E se debate na ânsia desesperada de saber como, dentro de todos esse fatores, ele irá conseguir lidar com seus limites para o ódio, a raiva, a frustração.

Resolvi, então, ouvir especialistas em três áreas para, por meio dos depoimentos sobre a criminalidade do homem, entendermos um pouco melhor esse fenômeno muito mais masculino da violência. De hoje e sempre.

Guido Palomba – psiquiatra forense

“É uma questão filo-ontogenética. Isso quer dizer que vem da formação da espécie humana dentro do reino animal e do aspecto que diz respeito à gênese e desenvolvimento do indivíduo homem. Na sua gênese o homem é caçador, é violento, é ele que sai para matar os animais, que vai para a guerra.

A questão da testosterona (hormônio mais presente nos homens), competitividade e a pressão para não se sentir deixado para trás também têm seu peso, é um conjunto de fatores, o homem é um ser biológico, psicológico e sócio-cultural.

Em alguns crimes as mulheres já estão se ombreando com os homens, mas em relação a esses crimes bárbaros, tipo serial killler, ainda é o homem a prevalecer. Claro que cometer esse tipo de matança é uma deformação, mas o comportamento agressivo é mais desenvolvido no homem do que na mulher.

Nestes picos a agressividade masculina se exacerba. Na verdade, ela, que é contida pelos freios sociais morais éticos religiosos e de compaixão, deixa de ter esses freios e vem de forma exacerbada contra tudo e contra todos.”

Jacqueline do Prado Valles – criminalista

“O homem tem a natureza um tanto mais violenta do que a mulher. Não que ela não tenha potencial nocivo, mas ela age de maneira mais meticulosa para cometer o crime. O homem é também muito mais emocional do que a mulher no momento da explosão. Com relação aos efeitos, o homem tende a ter o amparo maior da famillia, ele já conta que, caso aconteça algo, a familia vai ficar com ele, e isso em geral acontece.

Já a mulher é o seu próprio amparo e acaba ficando só. Ela não é mais julgada, é mais abandonada, fica mais à própria sorte, isso também é um inibidor. A mulher é responsável por mais pessoas, muitas vezes pelo marido, pelas crianças. Sabe que, se ela faltar, o prejuízo vai ser grande. O homem vai à luta, sabendo que tem alguém para resguardar.

Hoje em dia se você for para os corredores dos fóruns criminais vai ver muito mais mulheres do que cinco, 10 anos atrás, mas essa mulher está cometendo o crime junto com o homem. Ela é traficante. O homem vai preso e ela fica tomando conta do tráfico fora, tem sido esse o perfil. Faz parte da desenvoltura e empoderamento da muher na sociedade, ela tanto está aprimorando o lado lícito quanto o ilícito.”

Sebastião Aguiar – escritor

“A Arte imita a vida e ela se vale das paixões humanas literais para criar seu próprio argumento, sua história, seu pathos (paixão, sentimentos intensos). São retratados na literatura crimes, como em “Crime e Castigo”, de Dostoievsky, na situação de um homem jovem desesperado, sem saber qual caminho tomar e que comete a atrocidade de assassinar numa velhinha que alugava o quarto para ele. Ela era inofensiva, mas ele faz dessa personagem a fonte do mal e tenta liquidar o mal matando. Não dá muito certo, ele fica torturado pelo remorso.

A literatura policial é vasta neste tipo de situação, geralmente retratando momentos de desespero. Em “O Estrangeiro”, de Albert Camus, um homem acaba assassinando alguém na Argélia, e então perguntam por que ele fez isso. Ele responde: “foi o sol, muito sol”. Quer dizer, não tinha explicação, ele apenas se sentia desorientado e praticou esse ato sem nenhuma necessidade, atribuindo a causa ao desconforto e à irritação.

Muitas maldades acontecem sem uma razão, nem patologia. Mas a pessoa está em uma situação em que se vê fragilizada e reage dessa forma. A literatura reflete isso. Livros, poetas e vários autores acabam também sendo imitados na vida real, como no famoso livro “Os sofrimentos do jovem Werther”, que acaba gerando uma epidemia de suicídio no início dessa época do Romantismo, primeira metade do século 19.”